Como Eu
Vi a Invasão de Goa
Passando no próximo dia
18 de Dezembro mais um aniversário da brutal e pérfida invasão de Goa, Damão e
Diu pelas tropas da União Indiana, quero através duma simples e pequena
narrativa dos acontecimentos vividos por mim há precisamente 41 anos atrás,
prestar a minha homenagem aos que deram
as suas vidas em defesa daqueles territórios.
Estamos no dia 18 de
Dezembro de 1961 e como habitualmente pelas 06H30 estou na capela da Residência
dos Padres Jesuitas em Pangim assistindo a missa; o silêncio da cerimónia
religiosa é súbitamente quebrado por violentas explosões que fazem estremecer o
prédio; num acto instintivo vou a varanda e vejo seis aviões a jacto da Força
Aérea Indiana a passar sobre a cidade. O Reverendo Padre Garcia apressa a missa
e termina dentro de poucos minutos. Olho para o relógio e vejo que passsam
poucos minutos das sete horas. Ao regressar a casa encontro com algumas pessoas
que dizem que União Indiana começou a invasão de Goa, Damão e Diu. Os aviões
que foram vistos são caças bombardeiros que atacaram e destruiram a Emissora de
Goa. Alguns amigos dizem que do Altinho vêem-se nítidamente os edifícios da
emissora envoltos em chamas.
Em casa vivem-se
momentos de certa angústia não sabemos ao certo o que se passa; a casa onde
moramos fica a pouco mais de 100 metros do Palácio do Governo (Palácio de
Hidalcão) na margem sul do rio Mandovi frente a Betim; é um alvo fácil e está
ao alcance da artilharia indiana; o que fazer ? A imaginação dita os seus
conselhos e assim desço rápidamente ao pequeno quintal da casa onde existe um
pequeno armazém que tem a cobertura em cimento armado e penso que poderá servir
de abrigo caso haja bombardeamentos; limpo o armazém de modo que possa ser utilizado
em caso de emergência. A minha mãe acha que devemos ir a casa da tia Alba que
fica na Avenida Almirante Reis - próximo da Igreja Matriz por aí ser mais
seguro; arranjamos algumas roupas e outros artigos essenciais e seguimos a pé
para a casa da tia Alba. A cidade está desertra, as lojas estão fechadas, não
há aulas; passados uns minutos começa-se a ver algumas movimentações das tropas
portuguesas (Companhia de Caçadores nº1) e algumas forças da Polícia. São dez
horas e nas proximidades das instalações do Jornal “Heraldo” situadas no centro
da cidade na Rua Conde de Torres Novas estão concentradas muitas pessoas que
vão emitindo as suas opiniões; uns dizem que as tropas indianas vindas da
fronteira Norte já estão em Mapuçá e as que avançam da fronterira Leste já
alcançaram Pondá. Outros dizem que viram paraquedistas a serem lançados em
diversos pontos. Não acredito em nada do que dizem. Os boatos correm com
rapidez e são uma “arma” desmoralizadora para as reduzidas forças
indo-portuguesas.
Entretanto o meu tio
Vieira que mora nos Portais, nos arrabaldes da cidade vem ter conosco e diz que
é melhor sairmos do cento da cidade e irmos a casa dele por que ouviu dizer que
a cidade será bombardeada se as tropas portuguesas não se renderem; os meus
tios Joaquim e Alba preferem ficar na sua casa; nós aceitamos ir com o tio
Vieira, mas temos um problema para resolver primeiro; é que temos na nossa
companhia o “Piloto”, o nosso “fiel amigo” que temos de levar de volta a nossa
casa antes de seguirmos para a casa do tio Vieira, o que eu e meu irmão José
Filipe fazemos, tendo a preocupação de deixar alguma comida e água, que
julgamos ser suficiente para este dia, isto porque queremos voltar a nossa casa
pela tarde ou na manhã do dia seguinte; antes de sairmos da casa damos uma
vista de olhos pela marginal do rio Mandovi onde dois pelotões da Companhia
Caçadores nº 1 tomam posições de defesa; não dispõem de armamento pesado; só
dispõem as velhas “Mauser” e duas metralhadoras “Dreyse” que não permitem
impedir a progressão das tropas indianas até Betim e repelir a posterior
travessia do rio.
Vamos então para Portais
onde já se encontram outros familiares (tios e primos) e alguns vizinhos. A
primeira coisa que fazemos é procurar saber pela rádio notícias sobre o que se
está passando mas não conseguimos captar nenhuma estação; tentamos a BBC, a
Voice of America, a All India Radio, a Emissora Nacional, etc; a nossa Emissora
de Goa já não emitia depois dos bombardeamentos feitos logo pela manhã pela
Força Aérea Indiana.
Por volta do meio dia
houvem-se fortes detonações umas muito longínquas outras mais próximas; as
primeiras são resultado das explosões de cargas de dinamite colocacadas pelas
tropas portuguesas para destruir as pontes sobre vários rios; a destruição das
pontes é feita para retardar o avanço das tropas indianas; as detonações que
são mais próximas e até fazem vibrações nos prédios estão relacionadas com o
combate entre o Aviso de 1ª Classe “Afonso de Albuquerque” e as fragatas
indianas “Beas”, “Betwa” e “Cauvery”. Apesar da enorme superioridade das forças
indianas tanto numérica como em armamento o “Afonso de Albuquerque” luta
denodadamente não permitindo que os navios de guerra indianos entrem no Porto
de Mormugão; estou ansioso e torcendo para que o “Afonso de Albuquerque”
consiga vencer esta batalha naval, mas aos poucos a superioridade numérica da
armada indiana leva de vencida os heróicos marinheiros portugueses; o
Comandante do Aviso, Capitão de Mar e Guerra António da Cunha Aragão é
gravenente ferido e o grumete Piedade é atingido mortalmente; o aviso é
duramente atingido e encalhado perto da praia de Bambolim; a sua guarnição é
obrigada a abandoná-lo porque já não há nenhuma possibilidade de continuar o
combate.
Por volta das dezaseis
horas eu e o meu irmão José Filipe sem ninguém saber vamos para a nossa casa no
centro da cidade para vêr como está o
“Piloto”; quando chegamos próximo da casa, ouvimos algumas explosões na margem
norte, entre Britona e Penha de França; são as tropas indianas que estão
aproximando rápidamente de Betim enquanto as reduzidas forças portuguesas que
se encontravam em Mapuçá - Esquadrão de Reconhecimento nº 1 e Companhia de
Caçadores nº 9 de Ucassaim cumprindo as instruções do “Plano Sentinela”
utilizando os nossos típicos ferry-boats e barcaças de transporte de minério
deixam Betim e vem agrupar-se em Pangim, onde já se encontrava o Esquadrão de
Reconhecimento nº 2 vindo de Bicholim. Junto ao Palácio do Governo está
concentrada um imensa mole de gente entre os quais alguns são simpatizantes da
União Indiana; passam alguns carros e camiões com pessoas a gritarem “Jai Hind”
(Viva a India). Mal que entramos na casa o “Piloto” recebe-nos com
manifestações de contentamento que nós correspondemos com carícias que
contribuem prara acalma-lo. Na Marginal está tudo numa aparente calma, não há
indícios de combates; há um grande nervosismos entre os comandantes das
Unidades Militares, da Polícia e Guarda Fiscal; uns são de opinião que não há
condições para resister e por isso devem render, outros acham que deve-se
resistir; os minutos passam rápidamente e nós temos que regressar a Portais
pelo que aceleramos o andamento; quando chegamos a casa do meu tio em Portais verificamos que
ninguém deu pela nossa ausência o que nos tranquilizou bastante. Nas traseiras
da casa do meu tio Vieira passa a estrada que vai de Pangim para Agaçaim, que
em dias normais tinha um trâfego intenso, mas hoje não tem nenhum movimento.
Por volta das dezoito horas vimos aproximar um jeep “Toyota” de cor verde que
além do condutor leva três jovens; fazemos sinal para parar; dentro dos
ocupantes reconheço um – é o Júlio Camelo um colega do Liceu que mora no lar
dos Estudantes no Altinho; o condutor diz-nos que veio expressamente de Margão
transportar o Júlio para junto da família que se encontra naquela cidade;
perguntamos ao condutor como é que está a situação em Margão e ele responde que
por lá não há novidades.
As dezanove horas
estamos todos recolhidos e já é noite cerrada, reza-se o terço pedindo a paz e
protecção divina; pede-se a intercessão do Padroeiro de Goa S. Francisco
Xavier; as vinte horas conseguimos finalmente ouvir a “BBC” – que confirma a invasão de Goa por tropas da União
Indiana por três frentes e acrescenta que em Goa práticamente não há
resistência por parte das tropas portuguesas mas que em Damão e Diu tem havido violentos combates. Ao jantar os
tios dão as suas opiniões, dizem que as tropas portuguesas não tem nenhumas
possibilidades de resistir; nós escutamos e eu pessoalmente não quero acreditar
em nada daquilo que dizem. Ninguém dorme, as horas custam a passar e quando
surgem os primeiros raios de Sol do dia 19 de Dezembro a “All India Radio” de
Bombaim anuncia que as forças portuguesas acantonadas em Pangim renderam-se e
que as tropas indianas vão entrar em Pangim; ao longo da tarde rendem-se as
últimas tropas portuguesas concentradas ao longo da estrada
Margão-Vernã-Cortalim e na Península de Mormugão. A All India Radio noticia
ainda que Damão e Diu também acabaram de se render. É o fim da Goa Portuguesa e
do Estado da Índia a grande criação de Afonso de Albuquerque. Ao longo do dia
19 milhares de soldados indianos apoiados por tanques, viaturas blindadas,
carros anfíbios e unidades de artilharia ocupam Goa e a sua presença é notória
em Pangim que era uma cidade pacata e que pela primeira vez está sujeita ao
recolher obrigatório. Várias lojas e as cantinas militares são saqueadas. É a
prometida “libertação”!
O pacifista Nehru
discípulo de Gandhi desafiando todas as normas internacionais, a própria Carta
das Nações Unidas e as Resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas 1414
(XV), 1541 (XV) e 1542 (XV), mobilizou mais de 30.000 homens, artilharia,
tanques, blindados, com apoios de poderosas forças navais e aéreas para
invadir, ocupar e anexar Goa, Damão e Diu, que eram segundo a Resolução 1542
(XV) territórios não autónomos administrados por Portugal. O representante da
União Indiana nas Nações Unidas o Sr. C.
S. Jha, devidamente instruido pelo Sr. Nehru, usando da palávra na reunião
urgente do Conselho de Segurança pedida por Portugal teve o desplante de dizer
textualmente: “Com Carta das Nações Unidas ou sem Carta da Nações Unidas, com
Conselho de Segurança ou sem Conselho de Segurança a invasão prosseguirá e
anexação é um facto consumado”; convém não esquecer este procedimento de
governantes tidos como “democratas” e “pacifistas”. Os Goeses, Damanenses e
Diuenses não foram nem ouvidos nem achados, tiveram que aceitar o “dictat” do
falso paladino da paz o todo poderoso Sr. Pandit Jawarlal Nehru.
Francisco Monteiro